O discurso oficial pode até falar em equilíbrio fiscal e gestão responsável. Mas, na prática, quem está na linha de frente da segurança pública vive outra realidade — e ela é dura.
A declaração veio de onde menos se espera contestação: do próprio comando da corporação. Em entrevista à Arapuan FM, no programa conduzido por Luiz Torres, o comandante da Polícia Militar da Paraíba, o coronel Ronildo, trouxe à tona um dado que desmonta qualquer tentativa de suavizar a situação: o salário do soldado perdeu cerca de 50% do poder de compra ao longo dos últimos anos.
Segundo ele, em gestões passadas, como as de Ronaldo Cunha Lima e Cícero Lucena, um soldado recebia o equivalente a sete salários mínimos. Hoje, sob o comando de João Azevêdo e seu vice Lucas Ribeiro, esse valor encolheu drasticamente.
Na ponta do lápis, a queda é brutal: de algo próximo a R$ 11 mil para pouco mais de R$ 5,5 mil. Não é ajuste. É perda real. É empobrecimento.
E o mais grave: isso acontece enquanto o custo de vida sobe sem freio. Alimentação, combustível, aluguel — tudo mais caro. O salário, não.
O resultado é previsível: uma tropa cada vez mais pressionada, desvalorizada e distante de qualquer discurso de reconhecimento.
O próprio comandante reconhece o cenário. E quando a crítica vem de dentro da estrutura, não há como tratar como exagero ou oposição política. É diagnóstico.
A conta dessa política salarial não fecha — e quem paga é o policial, lá na ponta, e a população, que depende de um sistema de segurança cada vez mais fragilizado.
Mas a entrevista não parou por aí. O coronel também resgatou um episódio delicado da história recente da corporação. Ele reconheceu a atuação do ex-governador Ricardo Coutinho ao extinguir a chamada “Manzuar”, estrutura que, à época, estava sob suspeita de envolvimento em práticas de corrupção dentro da própria Polícia Militar.
Ao citar o caso, o comandante lembrou que a medida foi tomada justamente diante de registros de desvios envolvendo membros da corporação — um ponto sensível que reforça o tamanho dos desafios internos enfrentados pela segurança pública no estado.
No fim, fica um contraste difícil de esconder: enquanto o governo fala em avanço, a base sente o peso do retrocesso no bolso.










